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Escrevi este texto porque gostava que ficassem a conhecer a história, os momentos, as decisões e as consequências da Wishareit. O porquê de termos de fechar e como, já no fundo do poço, algo de bom e novo pôde surgir.

A Wishareit

A Wishareit nasceu no fim de 2011 com uma missão clara e simples: ajudar as pessoas a encontrar, recomendar, dar e receber os melhores presentes, com amigos e com a família. Tínhamos uma visão bem definida: queríamos mudar a forma como as pessoas faziam compras online, transformando-a numa experiência ‘social’ e ‘colaborativa’.

Foi assim que eu e o Pedro Moura nos lançámos numa aventura que construímos e desenvolvemos no último ano e meio. Desde cedo nos apercebemos de algumas falhas no modelo, tanto do ponto de vista de produto como de negócio. Motivados, por vezes deslumbrados, sempre acreditámos que não seriam essas falhas a levar-nos a ‘atirar a toalha’ e, assim, seguimos em frente.

Depois de participarmos num primeiro programa de aceleração, reunimos as condições necessárias (ou que achávamos necessárias) para avançar com o projeto. Construímos rapidamente uma primeira versão do produto e o resto, o resto é história. Concursos ganhos, viagens pagas, notícias em todo o lado ajudaram ao deslumbramento de algo que acabaria por se verificar insustentável. Cautela.

Hoje, encerrámos o capítulo Wishareit.

A importância de validar o modelo de negócio.

Hoje posso dizer, confortavelmente, que percebi os erros cometidos na Wishareit. Desde cedo, não houve foco suficiente para validar o nosso modelo de negócio. A premissa era simples: por cada produto vendido através da Wishareit, nós ganhávamos uma comissão do mesmo. Embora a frase seja simples, o processo era complicado: era necessário aceder a ‘n’ redes de afiliado, fazendo depois o match de todos esses produtos com os nossos.

Por outro lado, o nosso posicionamento, enquanto produto/serviço, obrigava-nos a permitir a adição de qualquer produto na plataforma por parte de qualquer utilizador. Foi desta forma que chegamos a cerca de 50.000 produtos diferentes na plataforma em que apenas algumas centenas ou curtos milhares possuíam possibilidade de monetização. Não crescer com este modelo de negócio validado foi uma das principais razões do nosso fim. Deixo o aviso: escalar prematuramente pode ser o fim de uma empresa. Mais vale crescer de uma forma mais conservadora, validando os diferentes pontos em que se baseia o nosso negócio, do que tentar crescer apenas numa ou noutra métrica (e.g., número de utilizadores) desenfreadamente, na esperança que a escala nos valide o modelo.

É o modelo que valida a escala, não o contrário.

Benefits over features

Outra das razões pela qual acredito que o projeto não escalou da forma que desejávamos foi, a certa altura, a solução para todos os nossos problemas passar por acrescentar novas features. Cada vez que sentíamos que o crescimento semanal estava abaixo do esperado, não pensávamos noutra coisa senão desenvolver mais e melhores features para melhorar a experiência do utilizador. Caímos no erro de desenvolver uma plataforma que servia toda a gente, yet não servia ninguém.

Hoje defendo que se desenvolva uma primeira versão muito simples, que teste as nossas propostas de valor básicas, alinhadas desde o início com a nossa hipótese de modelo de negócio. Construir mais e mais funcionalidades só vai deixar o processo de teste mais confuso.

E se fosse de novo?

Hoje, depois de ter passado por tudo isto, e ao ver todas as poupanças/esperanças/forças da nossa equipa investidas e dissipadas neste projeto, certamente teria feito muita coisa diferente. Fomos aprendendo ad hoc é verdade, mas a experiência é isto mesmo e creio que seria complicado imaginar, nas condições que tínhamos na altura, um outcome diferente.

Hoje, lançando uma Wishareit do zero, ter-me-ia focado numa proposta de valor mais clara e mais direta, teria definido um modelo de negócio simples e ter-me-ia focado, desde o dia zero, em perceber se o modelo de negócio era sustentável e escalável. Hoje, desligava-me da Wishareit em dois tempos, caso percebesse que certos requisitos de crescimento não estavam cumpridos.

Fall, Rise

Foi numa altura já esquizofrénica, onde tudo valia (no que toca a gestão de empresa, produto, oferta), em que a luz (a má, não a boa) estava já ao fim do túnel, que tomámos a nossa última decisão.

Foi já com uma data de fecho da empresa/projeto/equipa definida (n+2 semanas) que pegámos num plano Z e começámos a posicionar a Wishareit (ou a sua tecnologia) como um produto valioso e poderoso para empresas e lojas online.

Depois de falar com algumas marcas, percebemos que podia ali haver uma oportunidade. Percebemos que as marcas estavam alerta quanto ao tema do ‘social’ e que tinham graves lacunas na integração plena das redes sociais nas suas lojas online. Se, por um lado, as marcas estão atualmente proficientes em gestão de comunidades nas redes sociais, por outro, é-lhes muito complicado transformar essas grandes comunidades em tráfego qualificado e ‘engaged’ para os seus sites.

Por outro lado, sabemos que cerca de 71% do consumidores online têm maior probabilidade de fazerem uma compra se vierem referenciados de uma rede social.

É aí que a nova Wishareit entra: colocamos as lojas online, através da nossa tecnologia, a funcionarem como uma rede social onde os seus utilizadores podem encontrar, recomendar, dar e receber os melhores presentes com os seus amigos e família. Tudo isto num esforço transparente para aumentar a visibilidade, retenção e vendas das lojas online.

Hoje a Wishareit tornou-se GetSocial.

Raid para investimento

Começámos um processo louco quando, relembro, já tínhamos o fim pela frente: fundraising. Era a nossa última hipótese de continuação. Financeiramente estávamos exaustos (imagine cerca de dois anos sem qualquer tipo de rendimento).

Long story short: comunicámos a investidores com quem já tínhamos falado da Wishareit a nossa intenção de fazer um pivot de negócio.

Acredito que tenhamos gerado interesse, não só ou necessariamente por esta mudança, mas também por toda a perseverança e resistência que demonstrámos ao longo do caminho (isso acredito que nunca nos faltou nem vai faltar).

A Faber Ventures, que sempre nos acarinhou (mesmo enquanto Wishareit) durante o processo, foi um parceiro óbvio para este investimento. A Portugal Ventures, outro dos nossos parceiros de investimento, tinha-nos conhecido enquanto Wishareit (com decisão de não-investimento) e abraçou também esta oportunidade.

Em menos de dois meses conseguimos fechar um investimento que agora conheceu a luz do dia. Aqui só posso agradecer a todos os intervenientes pelo sentido de urgência que sempre demonstraram, trabalhando sempre para o futuro sucesso da nossa empresa.

GetSocial, S.A.

Foi assim que nasceu a GetSocial. A nossa promessa é simples: queremos aumentar drasticamente as vendas dos nossos clientes (lojas online). Para o fazer, utilizamos um conjunto de aplicações que, de diferentes formas, ajudam os retalhistas online a transformarem as suas audiências de redes sociais em maior percentagem de vendas online.

Não prometo que a GetSocial vá fazer um exit, não prometo que seja a melhor empresa a fazer o que pretende fazer, nem prometo sequer que isto seja um excelente negócio. Uma coisa posso prometer: tudo farei, com a minha equipa, para que todos os stakeholders possam ter a melhor experiência possível em todo o processo de interação com a nossa empresa. Tudo o que fazemos tem de gerar valor para clientes, investidores e para nós próprios. É nisso que nos baseamos, é sobre isso que trabalhamos, é com isso em mente que vivemos.

 

João Romão

http://getsocial.io
http://joaoromao.com