5 razões para nunca andar num carro autónomo da Uber by IziRepair

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Se não for um taxista, provavelmente adora a Uber e as melhorias que trouxe ao nível do atendimento ao cliente neste tipo de transporte.

Ainda para mais, a empresa avaliada em vários milhares de milhões de dólares é um dos atuais ícones de inovação, pois para além do seu produto mais famoso, a APP com serviço de táxi, tem investido em várias frentes:

  • Uber Eats – não tem notado um aumento dos entregadores de comida em Lisboa?
  • Leasing de carros – que aparentemente não correu de feição.
  • Carros autónomos – ou o fim dos taxistas? O que será melhor do que reduzir custos com mão-de-obra e ainda exterminar a concorrência?
  • Transporte aéreo – é verdade, se ainda não sabia que a Uber tem planos para transporte pelo ar, pode ler mais aqui.
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Visto que este é um blogue que versa sobre o mundo automóvel, deixemos de lado o negócio da Uber Eats. Não vamos também falar do negócio de leasing da Uber porque já parece ter pouco interesse, assim como também não vamos falar do transporte aéreo, pois certamente ainda vai correr muita tinta até estar perto de se concretizar (se algum dia o chegarmos a ver), ao contrário do propagado pelos quadros da Uber e dos próprios media.

Assim, restam-nos os carros autónomos. Aqui, num formato de artigo de opinião, vou indicar ao leitor as razões para não termos tão cedo carros autónomos da Uber. Ou, nada pouco verosímil, nunca chegarmos a ter essa experiencia na Uber, pelo menos de forma legal.

Atenção, os argumentos apresentados abaixo não representam um combate ao progresso tecnológico. Como fundador de uma startup tecnológica, nada faria menos sentido. Porém, as ambições associadas à inovação e ao progresso não nos devem cegar e devemos saber ler os sinais que a sociedade (que ao fim ao cabo é constituída pelos potenciais consumidores) vai dando, assim como perspetivar como o enquadramento legal se pode ou não adaptar às novas formas de negócio e inovações tecnológicas (e vice-versa, já que ambas as partes se influenciam mutuamente).


5 razões para não andar tão cedo num carro autónomo da Uber:

 

     1. Quadro regulamentar

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Só no final do ano passado o Tribunal de Justiça da União Europeia determinou que a Uber presta “um serviço na área dos transportes”, ao contrário do advogado pela empresa que dizia ser um simples intermediário tecnológico. Esta derrota vem na sequência de problemas legais que têm ocorrido um pouco por toda a Europa, com Londres à cabeça, onde a empresa foi proibida de operar em setembro. Por cá, o atual Governo submeteu uma proposta no Parlamento para regulamentar este tipo de plataforma tecnológica na área dos transportes, contudo PCP e BE opuseram-se ao facto de a mesma não ser equivalente à atividade dos táxis no que diz respeito à necessidade de se enquadrar nos contingentes existentes.

O que tem isto a ver com os carros autónomos? Tudo! Ora, se a Uber não consegue ter as devidas autorizações para operar em tantos mercados no Ocidente com um serviço que, no sentido prático (o transporte), é pouco diferente do que já existia (no fundo um motorista a levar passageiros), como vai conseguir obter fácil/rapidamente autorização para transportar passageiros sem motorista?!

 

     2. Acidentes com carros autónomos

 

Também do ponto de vista regulamentar, mas se calhar ainda mais importante, do ponto de vista da perceção dos consumidores, existe o assunto Segurança. Como se tem visto em diversos estudos relacionado com as tendências de mercado, os consumidores não estão assim tão certos que queiram delegar numa máquina a condução da sua viatura, estatisticamente falando.

Naturalmente não ajudará a convencer automobilistas e passageiros o facto de continuarem a circular notícias e vídeos sobre acidentes provocados por carros autónomos. Veja-se o exemplo seguinte, de um jornalista que se voluntariou para um teste de travagem automática de uma viatura Volvo:

3. Ataques informáticos

 

Pois é, como se não bastassem os erros informáticos destes novos sistemas per si, ainda existe a ameaça dos hackers. Já se imaginou num carro autónomo em que afinal não fosse o sistema original do mesmo a conduzi-lo, mas sim alguém que furou o software de segurança e agora se prepara para inutilizar os travões? Acha que é ficção? Já são do domínio público alguns exemplos em que hackers conseguiram, pelo menos parcialmente, o controlo remoto de carros em piloto automático.

 

     4. Questões éticas

 

É verdade, relacionado um pouco com os pontos anteriores ainda vêm as questões éticas. Como?

Existem muitos exemplos em que questões éticas se podem levantar, por isso centremo-nos num exemplo. Imagine que uma colisão está iminente, devido a fatores externos ao carro autónomo, como por exemplo a ação brusca de um condutor que vem em contramão. A colisão dar-se-à caso o carro autónomo não mude de direção, o que no caso de uma colisão frontal significará danos graves à saúde dos ocupantes de ambas as viaturas. Matemática e fisicamente a única hipótese, neste caso concreto, seria o carro autónomo desviar-se para a direita, para cima do passeio… onde se encontrava um conjunto de peões que inevitavelmente seria atropelado com essa decisão. Ora, como deverá ser programado o computador do carro autónomo? Salvaguardar a vida dos ocupantes da viatura ou dos peões? O que fazer?!

É certo que provavelmente nenhum humano nessa situação faria melhor, mas pode o construtor automóvel (ou até o legislador) decidir o que é certo num vasto conjunto de situações similares?

 

     5. Concorrência

 

A Uber está longe de estar sozinha na corrida aos carros autónomos e a novas formas de mobilidade. Outras empresas tecnológicas podem cruzar-se com a Uber na luta por quota de mercado em novos serviços que os carros autónomos venham a possibilitar, com a poderosíssima Google à cabeça. Depois, claro está, temos os tradicionais fabricantes automóveis com décadas e décadas de experiência (mas também vícios) na área da mobilidade, assim como a disruptiva e visionária Tesla.

Como se não bastasse o peso da potencial concorrência só por si, um estudo realizado em cinco países (EUA, RU, Alemanha, França e Itália), num total de 5.054 automobilistas inquiridos, revelou que os mesmos colocam as inovadoras empresas de transporte de passageiros (ex: Uber, Lyft, etc.) no fim da lista quanto à confiança que poderão depositar nelas para experimentar carros autónomos.

 

Diante de todos estes argumentos, manter-se-à a fé inabalável que “amanhã” já poderemos experimentar um Uber sem motorista?

 

Eu creio que não será amanhã e, talvez no caso da Uber, isso não venha a acontecer nunca.

 

Autor: Vítor Soares

Vítor é fundador e CEO da IZIRepair (www.izirepair.pt

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